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Lutas sociais sociais em Sorocaba/SP ontem e hoje:

Greve Geral de 1917, embate antifascista de 1937 e mobilizações atuais


Marcos Francisco Martins (org.)


Prefácio:

As lutas sociais têm sido objetivo de investigação em vários campos científicos, mas as que se efetivaram e se efetivam em Sorocaba/SP ainda são incipientes nos estudos e nas pesquisas das ciências humanas, sociais e sociais aplicadas. Elas se apresentam como objeto a ser rigorosamente investigado, isto é, são desconhecidas em muitos aspectos, embora guardem potencial civilizatório de enorme monta, pois desempenharam e desempenham papel fundamental na construção do estado democrático de direito, que está por ser consolidado no Brasil. Assim, se bem conhecidas e difundidas, podem inspirar e ensinar as gerações atuais a agir segundo os rumos de uma civilização democrática. Parte importante dos processos de lutas sociais ocorreram e ocorrem com as greves. No Brasil hodierno, a greve é um direito garantido constitucionalmente, conquistado com lutas sociais. Nesses processos, destacam-se as greves gerais. A primeira ocorrida no Brasil foi a de 1917 e ela teve repercussões importantes em Sorocaba, uma cidade localizada no interior do Estado de São Paulo e que foi conhecida como a “Manchester Paulista”, alcunha em referência à industrialização

que marcou a história do município e da região no início do século XX. Mas em 2017, as greves gerais voltaram a ser experienciadas no território nacional e também no município

de Sorocaba, nos dias 28 de abril, 30 de junho e 5 de dezembro. Se no princípio do século XX muitos direitos sociais estavam por conquistar, os que existem hoje, inclusive os consagrados constitucionalmente, estão ameaçados de extinção ou de restrição, porque se vive momento de vigência de uma “onda conservadora” a tencionar o mínimo que se tem de civilidade democrática no Brasil. É paradigmático desse processo o golpe “jurídico-midiático-parlamentar” objetivado em 2016, por meio do qual Temer tomou a Presidência da República e com ela faz contrarreformas, como a trabalhista e da previdência social, amparado por uma minoria: a grande mídia, a maioria conservadora do Congresso Nacional, do grande capital e do Poder Judiciário. Esta minoria social tenta impor à maioria os interesses e necessidades que lhe são próprios. Em larga comparação, este é o mesmo processo ocorrido no princípio do século XX. Foi contra isso que se levantaram os que participaram da greve geral de 1917 e os que se mobilizaram às greves gerais em 2017. Por isso, elas se revestem do caráter de resistência, com vistas à construção de um outro mundo, mais justo, fraterno e igualitário.

O objetivo deste livro é, justamente, contar a história dessas greves, tanto a de 1917 quanto as que se efetivaram em 2017, particularmente retratando a repercussão que tiveram em Sorocaba/SP. Com isso, pretendem os autores e autoras desta publicação oferecer às leitoras e leitores subsídios para que possam conhecer as histórias das lutas sociais, particularmente das greves gerais, e com eles aprenderem que a edificação do

mínimo que se tem de estado democrático de direito no Brasil não foi pacífica e é um processo em constante construção, porquanto depende das ações de resistência dos sujeitos individuais e coletivos integrantes das classes subalternas às iniciativas anti-civilizatórias da classe dominante e dirigente. Para tanto, a estrutura textual está organizada em três partes, que procuram cobrir o interstício de lutas sociais no Brasil que vai de 1917 a 2017, especificamente as greves gerais e as lutas antifascistas de ontem e de hoje. Os capítulos foram produzidos por historiadores com experiência no trato acadêmico-científico da questão investigada, bem como por pesquisadores(as) e militantes dedicados à tarefa de conhecer e articular lutas sociais. Cabe destacar que alguns autores e autoras que contribuíram com a presente obra são reconhecidos pelas publicações que produziram, sejam as que versam sobre as lutas sociais no Brasil e fora dele, sejam as que retratam a realidade histórica da cidade de Sorocaba/SP, em seus diferentes aspectos. A primeira parte, intitulada de “A história da greve geral de 1917 e as repercussões em Sorocaba/SP”, é a mais extensa. Isso se deve ao fato de que os autores e autoras resolveram dedicar a maior parte do livro para essa questão, porquanto ser menos conhecida e sobre a qual se tem menos publicações, sobretudo, em se tratando dos eventos transcorridos em Sorocaba/SP. Nesta parte constam oito capítulos, os quais fazem uma contextualização do período em que a primeira greve geral ocorreu, apresentam publicações operárias da época, expõem como ocorreu e quais foram os principais protagonistas da greve de 1917 e, ao final, são apresentados dois capítulos para resgatar a iconografia do movimento operário do período tratado, com destaque para representações dos eventos em Sorocaba/SP. Importa frisar que entre os protagonistas da greve geral de 1917 estava o movimento anarquista, portanto, ele é abordado transversalmente em alguns capítulos do livro, mormente os que compõem a primeira parte, especificamente em três deles.

A segunda parte avança no tempo e aborda a luta antifascista ocorrida em 1937 e que reverberou na “Manchester Paulista”. Para expor e analisar essa questão, são apresentados quatro capítulos, os quais contextualizam a década de 1930, fazem um balanço da conjuntura política e ideológica de Sorocaba/SP neste período e identificam os personagens e enredo da história transcorrida. Na última parte do livro, “Educação, anarquismo, greve geral e luta antifascista ontem e hoje”, as lutas sociais atuais são abordadas, mas tendo como referência o que foi acumulado pelos sujeitos das lutas passadas, particularmente pelos anarquistas e pelo movimento operário de outras orientações ideológicas. Isso é feito em três capítulos, sendo que no primeiro deles são apresentados subsídios para se compreender os sujeitos dos processos de lutas sociais do início do XX. No segundo e no terceiro capítulos, o momento atual é retratado, considerando que há novos sujeitos sociais atuando na realidade presente e que são identificados como “movimentos sociais regressivos”; eles são apresentados e analisados criticamente. No último capítulo da terceira parte, as greves gerais de 2017 efetivadas no Brasil, com incidência em Sorocaba/SP, são expostas, mas antecedidas no texto pela discussão etimológica do termo greve, pela diferenciação entre greve e greve geral, bem como pela apresentação dos antecedentes das greves gerais de 2017, localizados nas chamadas “Jornadas de Junho de 2013”. Dessa maneira organizado, entende-se que este livro poderá contribuir sobremaneira com o avanço do estado da arte dos estudos e pesquisas sobre as lutas sociais. Ao mesmo tempo, o texto poderá se constituir como fonte a estudantes do ensino médio, bem como os de graduação e pós-graduação, interessados (as) em conhecer a história das lutas sociais, especialmente das greves gerais de 1917 e de 2017 realizadas no Brasil e que repercutiram em Sorocaba/SP.


MARTINS, Marcos Francisco. Lutas sociais em Sorocaba/SP ontem e hoje: Greve Geral de 1917, embate antifascista de 1937 e mobilizações atuais / Marcos Francisco Martins (org.). – São Paulo: Edições Hipótese, 2018. 472p.





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