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Dia da Consciência Negra em Sorocaba

Atualizado: 5 de dez. de 2021


Zumbi, o líder do Quilombo de Palmares, sempre foi um referencial de luta para o movimento negro no Brasil. Na década de 1930, a imprensa negra paulista, bem como organizações do movimento como a Frente Negra Brasileira, vez ou outra apresentaram o rei palmariano como exemplo de resistência à escravidão e, por consequência, à opressão imposta pelo racismo já nos tempos da liberdade formal.

Na década de 1960, os movimentos negros buscavam ampliar e, ao mesmo tempo, potencializar esse símbolo associando-o à Consciência Negra: consciência de luta, consciência de resistência, consciência do valor dos saberes e da cosmovisão herdada da África.

É consenso que no ano de 1978 a data do Dia Nacional da Consciência Negra foi reivindicada pelo Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial, associando-a ao dia 20 de Novembro (data que se acredita ter sido morto Zumbi dos Palmares) como um momento especial de reflexão sobre a luta pelos direitos dos afro-brasileiros.

Sorocaba comemorou a data desde 1979, apesar dos percalços que os pioneiros tiveram de enfrentar. O professor Jorge Narciso de Mattos, liderança do movimento negro em Sorocaba à época, salientou que desde o início Sorocaba celebrou a data com seminários de estudos e eventos especiais (CRUZEIRO DO SUL, 20 nov 1984, p. 6). De acordo com um mural do ICAB publicado na década de 1980, “É a primeira vez que assumimos esta data e o fazemos com ânimo definitivo, uma vez que a existência do Icab – Instituto de Cultura Afro-Brasileira – somente se justifica a partir de uma posição que favoreça a conscientização do negro, ante o árduo caminho que vem percorrendo e deve continuar a fazê-lo, até que possa, (sem as detestáveis discriminações de que é alvo, tão só pelo fato de ser negro) ser livre”.

Em 1983, o ICAB (Instituto de Cultura Afro-Brasileira), organização ligada ao Clube 28 de Setembro, promoveu uma palestra com o tema “Zumbi e a rebelião de Palmares”, proferida pela professora Ana Maria de Souza Mendes. Na ocasião, o presidente do ICAB, Bernardino Antônio Francisco manifestou-se dizendo: “Desde a escravidão o objetivo do negro sempre foi esbranquiçar. Porém, a partir do movimento negro, há mais de 20 anos, houve uma intensificação, que aumentou nos últimos 5 anos, do negro à procura de sua identidade, surgindo o Dia Nacional da Consciência Negra, em 1978, no momento em que o negro começa a se identificar como negro. Antes disso ele estava angustiado, mas hoje é o contrário, pois primeiro ele se vê como negro e depois com os outros fatores” (CRUZEIRO DO SUL, 20 nov 1983, p. 7).



Ainda assim, a data era desconhecida por muitos negros sorocabanos, mesmo quando do centenário da Abolição da escravidão, em 1988. Nesse ano, a comemoração do dia se restringiu a um Baile da Consciência Negra e a um desfile de trajes e penteados afros, ambos eventos ocorridos na sede do Clube 28 de Setembro (CRUZEIRO DO SUL, 19 nov 1988, p. 22).

Na década de 1990, a celebração do dia parece que se arrefeceu, embora o ânimo das lideranças negras ainda estivesse presente para a construção de projetos de valorização da História e da cultura de africanos e seus descendentes. Em 1994, por exemplo, o NUCAB – Núcleo de Cultura Afro-Brasileira (que substituiu o ICAB), já atrelado à Uniso (Universidade de Sorocaba), manifestou o desejo de realizar parcerias com outras instituições, como a Academia Sorocabana de Letras e a Fundec (Fundação de Desenvolvimento Cultural) para dar vida ao “Projeto Zumbi – Resgatando Memórias – A Cultura Negra em Sorocaba”. O projeto teria diversos desdobramentos, entre eles o da publicação do livro “Negros que fizeram a História”, com o escritor e pesquisador Geraldo Bonadio falando sobre o cururueiro João David; o professor Paulo Tortello falando sobre João de Camargo; Bernardino Antônio Francisco escrevendo sobre Salerno das Neves; Sérgio Coelho de Oliveira descrevendo “as figuras pitorescas que envolvem a cultura de Sorocaba”; Jorge Narciso de Mattos discorrendo sobre a biografia de Luis Leopoldino Mascarenhas (MAIS CRUZEIRO, 20 nov 1994, p. 3). Aparentemente, o projeto não ocorreu.

Em 1994, a Igreja Metodista de Sorocaba, na Vila Leão, promoveu a comemoração do Dia da Consciência Negra com música, dança e palestra. O jornalista João Dias discorreu sobre a História e a Cultura do Povo Negro. O bailarino Maia Junior fez uma performance com trechos do poema “Navio Negreiro”, de Castro Alves. A parte musical ficou a cargo de dois corais: o Cantafro e Coral da Comunidade Evangélica de Sorocaba (CRUZEIRO DO SUL, 19 nov 1994, p. 19). A partir dessa época, a Igreja Metodista participou diversas vezes da comemoração do Dia da Consciência Negra.

Em 1996, por meio da lei Nº 5.218, de 25 de setembro de 1996 foi instituído em Sorocaba o “Dia da Consciência Negra”, por propositura do vereador João Francisco de Andrade. Em 1999, o Movimento das Mulheres Negras de Sorocaba (MOMUNES) realizou uma série de atividades comemorativas ao Dia da Consciência Negra. Entre as diretoras do MOMUNES estavam Maria José de Almeida Lima (Mazé Lima) e Marilda Aparecida Correa, que visitaram o jornal Cruzeiro do Sul para difundir as diversas ações realizadas pelo movimento. Nos anos seguintes, diversas personalidades do movimento negro estiveram presentes na organização do Dia da Consciência Negra como Ademir Barros dos Santos, Lucimara Rocha, Márcio Brown (Márcio Roberto dos Santos) e outros.

Em 2003 foi promulgada a Lei Federal 10639/03, que alterava alguns artigos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), sendo que a nova redação do art. 79 B dizia que “o calendário escolar incluirá o dia 20 de Novembro como Dia Nacional da Consciência Negra”.

Esse fato reacendeu o ânimo e os debates em torno da Consciência Negra. Em 2005, o Sindicato dos Metalúrgicos e a CUT (Central Única dos Trabalhadores) realizaram homenagens a personalidades pela passagem do Dia da Consciência Negra, em Votorantim e em Boituva. Em Sorocaba ocorreu uma missa na Igreja de São Benedito (CRUZEIRO DO SUL, 21 nov 2005, p. A 6). Nesse ano e no ano seguinte, escolas públicas (especialmente estaduais) de Sorocaba começam a apresentar projetos de exposições e debates sobre o Dia da Consciência Negra.

Uma das primeiras professoras a realizar esse trabalho foi Maria Luiza Gáspari, da escola estadual “José Quevedo”, do Cajurú.



Em 2007, a partir da propositura do vereador Raul Marcelo, o dia 20 de Novembro passou a ser feriado municipal do “Dia da Consciência Negra”. A lei Nº 8.120, DE 2 de Abril de 2007 instituiu, em seu artigo primeiro, o feriado. Logo ocorreram manifestações contrárias, afirmando que um novo feriado iria prejudicar o comércio e a economia local.

A resistência se fez presente e em 2008 ocorreu a comemoração do primeiro feriado da Consciência Negra, com celebrações diversas e culminando num encontro na Igreja de João de Camargo, líder histórico negro de Sorocaba. No tocante a manutenção dessa tradição, reconhecendo o trabalho coletivo de diversas personalidades e lideranças negras de Sorocaba, destaca-se a figura de Rosângela Alves, que por muitos anos levou à frente a organização dessa celebração na capela de Nhô João de Camargo.


Carlos Carvalho Cavalheiro

25.09.2021


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